PPPs na Saúde: um novo ciclo da saúde pública no Brasil

O modelo de Parceria Público-Privada (PPP) na saúde brasileira completou mais de uma década de operação desde sua primeira experiência, o Hospital do Subúrbio, em Salvador (BA), inaugurado em 2010.

Nesse período, o país acumulou aprendizados relevantes, consolidou boas práticas e vivenciou uma aceleração sem precedentes tanto no volume de contratos quanto na escala e sofisticação dos projetos em estruturação.

Com experiências nacionais consolidadas em diferentes regiões do país, dois projetos federais inéditos em andamento e um mercado que em 2025 movimentou R$ 4,6 bilhões em capital comprometido, o Brasil entra em uma nova fase das PPPs hospitalares, marcada por competitividade, certificações internacionais e integração tecnológica.

Um modelo em maturação

O benchmarking das PPPs hospitalares brasileiras revela dois modelos predominantes de concessão. O modelo de bata branca atribui ao parceiro privado a gestão tanto dos serviços assistenciais quanto dos de suporte. O Hospital do Subúrbio (BA) é a principal referência nacional nessa modalidade, sendo amplamente reconhecido por premiações internacionais do World Finance e do Banco Mundial e pela certificação da Organização Nacional de Acreditação (ONA).

Na grande maioria dos projetos em operação, prevalece o modelo de bata cinza, no qual a iniciativa privada assume exclusivamente os serviços não assistenciais como a construção, equipagem, manutenção e operações de tecnologia, alimentação, limpeza, engenharia clínica, segurança entre outros serviços não assistenciais, enquanto toda a gestão clínica permanece sob responsabilidade pública.

Nessa modalidade, destacam-se o Hospital Delphina Rinaldi Abdel Aziz (AM), operado pela OPY Health, com acreditação ONA Plena e certificações ISO internacionais, referência no Amazonas em alta complexidade e transplantes; os três complexos hospitalares paulistas, Hospital Regional de Sorocaba, Hospital da Mulher e Hospital Regional de São José dos Campos, todos com certificação ONA e operados pelo consórcio Innova Saúde. Juntos, somam mais de R$ 4 bilhões em investimentos contratuais e atendem centenas de municípios do interior do estado.

Ainda, o Hospital Metropolitano Dr. Célio de Castro (MG), também acreditado pela ONA e a Maternidade Dona Regina, em Palmas (TO), projeto vencido pela OPY Health em leilão realizado na B3 em 2024, com contrato de concessão administrativa de 30 anos e investimento de R$ 283 milhões para a implantação de 210 leitos, atualmente em fase avançada de construção — reforçando a expansão do modelo para regiões historicamente com menor cobertura hospitalar especializada.

Experiências internacionais, como o Hospital de Cascais (Portugal) e o Hospital La Ribera (Espanha), complementam esse panorama e oferecem lições importantes sobre equilíbrio econômico-financeiro de longo prazo e renegociação contratual.

Novos marcos e projetos de alto impacto

A PPP do Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS), em Campo Grande, representa um divisor de águas para o mercado nacional. Estruturada no modelo bata cinza, o projeto recebeu o Selo FAST-Infra, certificação internacional que atesta conformidade com padrões globais de sustentabilidade ambiental, social e de governança (ESG), tornando o HRMS o segundo hospital do mundo a obter essa distinção.

O reconhecimento ampliou a atratividade junto a investidores internacionais e resultou, em dezembro de 2025, no leilão mais competitivo da história das PPPs hospitalares brasileiras: cinco concorrentes e deságio de 22% sobre o valor de referência, com proposta vencedora de R$ 15,9 milhões mensais pela Inova Saúde MS.

O contrato, assinado em maio de 2026, prevê R$ 7,3 bilhões em despesas operacionais e R$ 966 milhões em obras ao longo de 30 anos, com ampliação de 60% da capacidade ede 360 para 577 leitos e crescimento dos atendimentos de 30 mil para 42 mil por ano, com atendimento 100% gratuito pelo SUS.

No plano federal, o setor registrou dois movimentos inéditos, ambos no modelo bata cinza. O novo campus integrado do Instituto Nacional de Câncer (INCA), no Rio de Janeiro, constitui a primeira Parceria Público-Privada federal da saúde no Brasil.

Com investimento previsto de R$ 2,5 bilhões, o projeto reunirá as 18 unidades hoje fragmentadas do instituto em um único complexo de assistência, ensino e pesquisa, ampliando em 40% a capacidade de atendimento em radioterapia e quimioterapia, com obras previstas para 2026.

O segundo projeto federal envolve o Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre, com investimento de R$ 1 bilhão para a construção de um complexo hospitalar inteligente, totalmente digital, com inteligência artificial e conexão permanente com a rede do SUS.

O projeto integra a Rede Nacional de Hospitais e Serviços Inteligentes e Medicina de Alta Precisão, que prevê 14 UTIs automatizadas distribuídas por 13 cidades brasileiras e financiamento de R$ 1,7 bilhão do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco do BRICS).

Ainda no Rio Grande do Sul, encontra-se em fase de estruturação a PPP do Hospital de Viamão, com apoio técnico do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), mais um passo na consolidação do estado como referência nacional nessa agenda.

Considerações finais

A trajetória das PPPs hospitalares no Brasil demonstra que o modelo é capaz de entregar resultados concretos, acreditações ONA, certificações internacionais, indicadores de qualidade acima da média e ampliação significativa da capacidade instalada. Mas talvez o avanço mais estrutural que esse modelo representa vá além dos números: trata-se de uma mudança profunda na lógica de como o Estado brasileiro constrói, opera e responde pela saúde pública.

Durante décadas, o modelo tradicional de construção hospitalar via contratos públicos se mostrou pródigo em aditivos, atrasos e custos que frequentemente superavam qualquer estimativa inicial, comprometendo o sentido econômico e social do próprio investimento público.

A PPP rompe com essa lógica ao transferir ao parceiro privado o risco da construção, da entrega no prazo e da manutenção ao longo de décadas, com remuneração atrelada ao desempenho real dos serviços. O resultado é uma infraestrutura que chega mais rápido, mais moderna e com responsabilidade contratual clara sobre quem responde quando algo não funciona.

Mais do que isso, o modelo reposiciona o poder público em seu papel mais legítimo: o de gestor estratégico e fiscalizador. Em vez de se perder na operação cotidiana de lavanderia, manutenção predial e contratos de vigilância, o Estado passa a concentrar suas energias no planejamento da rede, na regulação da qualidade assistencial e na garantia do acesso universal.

Essa mudança de postura amplia a capilaridade do SUS com mais eficiência, permitindo que os recursos públicos cheguem mais longe e com maior impacto para a população.

Com a entrada da União como ente concedente, a consolidação de um mercado mais competitivo e a agenda de hospitais inteligentes em curso, o Brasil tem hoje as condições para transformar as PPPs hospitalares em um instrumento estrutural de modernização da saúde pública, desde que a gestão esteja à altura do desafio e que o poder público assuma, de fato, o protagonismo que lhe cabe: não como executor de obras, mas como guardião da qualidade e do acesso.

 

Felipe Ruiz

Administrador Hospitalar, Especialista em PPP Saúde,
Diretor Regional Amazonas da FBAH

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Desde 1971, a Federação Brasileira de Administradores Hospitalares é pioneira em colocar a gestão no centro da Saúde no Brasil.

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