Na gestão de um hospital, um profissional da saúde deve atuar como herói ou se capacitar para atuar com metodologias de Supply Chain?

Desde que ingressei no mercado hospitalar, em 2014, o que considero um grande presente para minha trajetória profissional, tenho buscado compreender como contribuir para tornar esse setor mais eficiente. Ao longo da minha atuação nas empresas pelas quais passei, procurei promover a eficiência operacional com base em três pilares:

  • Processos;
  • Pessoas;
  • Sistemas.

E essa deve ser a ordem: Processos + Pessoas + Sistemas.

Quando observo o primeiro pilar, Processos, percebo que existem diversas metodologias plenamente aplicáveis ao setor hospitalar, muitas delas adquiridas durante minha experiência na indústria.

Como exemplo, destaco o S&OP (Planejamento de Operações e Vendas), o Strategic Sourcing (Matriz Estratégica de Compras), o Lean, voltado à redução de desperdícios, e o Six Sigma, utilizado para solucionar problemas complexos. Ou seja, dispomos de metodologias consolidadas que podem ser aplicadas ao nosso setor.

Ao analisar o pilar Sistemas, também considero que o mercado hospitalar conta com boas soluções, como ERPs (sistemas de gestão), plataformas de compras, faturamento e gestão de estoques, entre outras. Portanto, não considero que os sistemas representem o principal desafio.

No entanto, quando volto meu olhar para o pilar Pessoas, identifico uma lacuna na formação dos profissionais em metodologias de eficiência operacional, que costumo reunir sob o conceito de Supply Chain. Essa preocupação se baseia no fato de que profissionais fundamentais para o setor, como enfermeiros, farmacêuticos e médicos, normalmente não recebem, em sua formação básica, conteúdos voltados à gestão ou à eficiência operacional.

Como consequência, no dia a dia, esses profissionais fazem o processo acontecer da melhor forma possível, criando o que costumo chamar de “cultura do herói”. Trata-se do profissional que faz acontecer, que salva a vida do paciente, mas que, por não atuar com base em processos estruturados e metodologias adequadas, pode acabar comprometendo a sustentabilidade da instituição. Ainda que consiga salvar o paciente, pode gerar rupturas de estoque, desperdícios e falhas de controle, justamente porque o atendimento não segue um processo padronizado e registrado em sistema, capaz de garantir rastreabilidade, controle e os resultados esperados da eficiência operacional.

Por essa razão, tenho buscado desenvolver, não apenas na empresa em que atuo, mas também para todo o setor da saúde, cursos, certificações e mentorias voltados à capacitação dos profissionais. Meu objetivo é contribuir para que esses profissionais sejam, se assim podemos dizer, “heróis com metodologia”. Afinal, depender exclusivamente do heroísmo representa um risco para o paciente, já que apenas aquele profissional domina determinada forma de executar o processo. Quando ele não estiver presente — e um dia não estará —, ninguém conseguirá reproduzir aquele atendimento da mesma maneira. Como consequência, um medicamento ou material pode não chegar ao paciente no momento adequado, por exemplo.

Também tenho mantido diálogo com as empresas acreditadoras e recomendado que orientem os profissionais assistenciais a buscar capacitação em Supply Chain ou, até mesmo, que desenvolvam cursos introdutórios sobre o tema. Afinal, informar a um farmacêutico ou enfermeiro que existe um problema logístico na entrega de materiais e medicamentos, com potencial de gerar riscos assistenciais, não é suficiente para solucioná-lo. Como mencionei anteriormente, esses profissionais, em muitos casos, não receberam treinamento em logística e, consequentemente, nem sempre sabem por onde começar.

Aproveito para fazer um breve comentário sobre inteligência artificial: muitas pessoas afirmam que a IA substituirá os profissionais. Eu vejo esse cenário de forma diferente.

Na minha opinião, a inteligência artificial tende a substituir atividades repetitivas e operacionais. Os profissionais que perderem espaço serão, na verdade, substituídos por outros que saibam utilizar a IA como ferramenta para ampliar sua produtividade.

Por isso, considero que esse também é um tema no qual vale a pena investir em formação.

Para concluir, deixo uma sugestão: busquem capacitação em gestão e em metodologias capazes de gerar soluções efetivas para os desafios do setor. Esse caminho começa pela melhoria dos processos, passa pela qualificação das pessoas e se consolida com o uso adequado dos sistemas, garantindo governança, agilidade e eficiência. Dessa forma, os hospitais poderão alcançar melhores resultados operacionais e assistenciais.

Mais do que heroísmo, precisamos de profissionalismo.

Seja um agente de transformação em seu hospital. E, se considerar que posso contribuir nessa jornada, fique à vontade para entrar em contato. Afinal, juntos podemos transformar o setor da saúde, do qual todos nós, em algum momento, somos usuários.

João Fábio Bianchi
Diretor e Mentor em Supply Chain

Quem somos

Desde 1971, a Federação Brasileira de Administradores Hospitalares é pioneira em colocar a gestão no centro da Saúde no Brasil.

Ao longo de mais de cinco décadas, a FBAH consolidou-se como referência nacional, promovendo a valorização e qualificação dos profissionais que fazem a diferença na administração de hospitais e na gestão da saúde.

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