A transformação digital na saúde vem acelerando nos últimos anos, impulsionada pelo avanço das tecnologias da informação, o crescimento do campo da saúde digital no Brasil e a pressão por inovações, como a inteligência artificial (IA). Trago aqui uma análise integrada de três fontes recentes – a Pesquisa TIC Saúde 2024, o recente levantamento Nexus Pesquisa Saúde Digital (2025) e o “State of AI in Business 2025 Report” do MIT – que revela não só tendências e diferenças no ritmo de adoção, mas também barreiras estruturais e potenciais para a transformação sustentável do setor.
A Pesquisa TIC Saúde 2024, que é realizada desde 2013 pelo Cetic.br, mostra que a infraestrutura e a adoção de tecnologias digitais avançaram significativamente em estabelecimentos de saúde no Brasil. Praticamente todos os estabelecimentos utilizam internet e a maioria já dispõe de sistemas eletrônicos para registro dos dados dos pacientes, com crescimento expressivo do uso de prontuário eletrônico, recursos de nuvem, telessaúde e aplicações baseadas em IA, ainda que as taxas de uso efetivo destas últimas sejam mais modestas e concentradas em grandes hospitais.
O recém-publicado estudo realizado pelo Instituto Nexus, e divulgado pelo SESI, traz uma interessante perspectiva da população brasileira e dos usuários finais: embora o conhecimento sobre saúde digital ainda seja desigual e fortemente associado à renda e escolaridade, a experiência geral com estes serviços é majoritariamente positiva, com 81% dos usuários que já acessaram saúde digital avaliando sua experiência como positiva. O uso de IA para diagnósticos e tratamentos já aparece entre os serviços mais citados – reforçando a tendência de aceitação dessas tecnologias.
O relatório do MIT “State of AI in Business 2025 Report”, apesar de não ser específico do setor saúde, demonstra a existência de uma lacuna de adoção de IA: embora haja alta experimentação e pilotos, poucos projetos são escalados de fato e o impacto estrutural ainda é restrito, destacando que setores como mídia e telecomunicações estão mais avançados na adoção, ao contrário do setor de saúde também citado no relatório. Os resultados são importantes para entender que as empresas precisam focar em projetos que entreguem impacto real e escalável. Os dados indicam que, apesar de crescente uso de recursos de IA, barreiras como falta de capacitação, preocupações éticas, qualidade dos dados e integração nos fluxos de trabalho limitam a escala e o retorno prático das iniciativas.

A transformação digital na saúde vem acelerando nos últimos anos, impulsionada pelo avanço das tecnologias da informação.
Um aspecto relevante destacado pelo estudo do MIT é o fenômeno conhecido como “shadow AI” ou “IA paralela”, em que profissionais utilizam ferramentas não corporativas, como ChatGPT e outras inteligências artificiais de uso pessoal, para melhorar sua produtividade no trabalho. Essa prática acontece paralelamente às iniciativas formais de tecnologia da informação. Interessante notar que a pesquisa TIC Saúde 2024 corrobora com essa informação, indicando que muitos médicos e enfermeiros usam ferramentas de IA, e que não são necessariamente as oficiais ou corporativas da instituição, buscando agilidade, suporte em decisões clínicas ou auxílio na comunicação interna. Este comportamento revela uma lacuna entre as soluções corporativas rígidas e estáticas e as necessidades reais dos profissionais, que buscam ferramentas flexíveis, adaptáveis e que aprendem com o uso, características que as soluções corporativas frequentemente não oferecem.
A experiência internacional mostrada pelo relatório MIT e a realidade brasileira convergem em um ponto: projetos de IA que priorizam adaptação aos processos reais, aprendizado contínuo e integração à rotina das equipes têm maior impacto. Iniciativas bem-sucedidas geralmente começam com aplicações focadas, customizadas e agregadoras de valor perceptível, expandindo para funções mais críticas à medida que provam sua eficácia.
Insights
A soma desses dados indica um cenário promissor e, ao mesmo tempo, complexo. O Brasil já apresenta avanços substanciais em conectividade, digitalização e uso de sistemas eletrônicos, além de uma base relevante de usuários favoráveis à inovação. Para que a IA cumpra seu potencial disruptivo e gere benefícios sustentáveis, será fundamental:
- Investir em capacitação e formação de equipes multidisciplinares.
- Desenvolver soluções de IA ajustadas à realidade local e às demandas.
- Promover parcerias estratégicas que facilitem customização e integração real nas operações.
- Tornar a experiência do usuário central, priorizando usabilidade, privacidade e segurança.
- Combater a resistência às ferramentas corporativas, incorporando lições do uso espontâneo da “IA Paralela” para oferecer sistemas mais flexíveis e adaptativos.
- Criar indicadores de impacto efetivo, além da mera adoção tecnológica, acompanhando mudanças nos desfechos clínicos, eficiência e satisfação dos pacientes.
Assim, o futuro da saúde digital dependerá menos da adoção isolada de tecnologias e mais da capacidade de criar ecossistemas que aprendem, se adaptam e evoluem no dia a dia dos serviços de saúde.
Artigo escrito por José Luiz Bruzadin
Advisor stattups, diretor executivo da JLAB Consulting e professor da FIAP




