O estetoscópio também foi polêmico

Em 1821, o médico escocês John Forbes traduziu o tratado de Laennec, o inventor do estetoscópio, e no prefácio chamou aquilo de uma das maiores descobertas da medicina. Na mesma página, previu que o instrumento dificilmente entraria em uso geral, porque exigia tempo demais e dava trabalho demais a médico e paciente. Havia ainda, dizia ele, algo de quase ridículo na cena de um médico auscultando o doente através de um tubo. Dois séculos depois, esse tubo pendurado no pescoço virou o símbolo da própria profissão.

A história da medicina repete esse enredo com regularidade impressionante. Quando os raios X apareceram, em 1895, o público se dividiu entre o fascínio e o medo de ser visto por dentro, e uma empresa de Londres teria chegado a anunciar roupas íntimas à prova de raios X. O ultrassom obstétrico dos anos 1950 enfrentou a desconfiança de quem via ali imagem demais e clínica de menos. As acusações são sempre as mesmas: a tecnologia afasta o médico do paciente, substitui o julgamento clínico, não é medicina de verdade.

E aqui está o ponto que costuma se perder nesse enredo: a resistência não é a vilã da história. Parte dela é corporativismo, claro. Mas parte é o mecanismo pelo qual a medicina protege o paciente de novidades que ainda não provaram valor.

Nenhuma dessas tecnologias venceu o debate no grito. O estetoscópio virou medicina quando fundou uma nova semiologia. A radiologia, quando ganhou técnica, proteção e uma especialidade inteira. A tecnologia entra na medicina no dia em que deixa de ser aparelho e passa a ser prática, com método descrito, evidência acumulada e responsabilidade definida.

A telemedicina percorreu esse mesmo ciclo em velocidade acelerada. O Brasil viveu os capítulos todos em duas décadas: em 2002, o Conselho Federal de Medicina reconheceu a prática em uma resolução tão restritiva que quase a inviabilizava. Uma nova resolução, publicada em fevereiro de 2019, tentou ampliar o alcance e foi revogada três semanas depois, sob protesto da própria categoria, antes mesmo de entrar em vigor. Veio a pandemia, veio a autorização de emergência, e o atendimento remoto funcionou bem demais para ser desligado. Em 2022, a Resolução CFM 2.314 deu as balizas éticas e a Lei 14.510 deu o marco legal. O que era regime de exceção virou prática instituída. Hoje ninguém sério discute se teleconsulta é medicina. Discute-se indicação, processo e desfecho, que é exatamente a discussão que se faz sobre qualquer prática consolidada.

No Hospital Moinhos de Vento, a telemedicina não nasceu na pandemia. Começou há exatos dez anos, em projetos com o Ministério da Saúde pelo PROADI-SUS, quando levar especialista a distância ainda era assunto de projeto piloto e não de linha de cuidado. Quando 2020 chegou, o que fizemos foi expandir uma operação que já existia, e não montar uma às pressas. Foram quase 5.000 atendimentos nos primeiros meses daquele ano, com nota 9,3 de experiência e NPS 84 entre os pacientes ouvidos. Mas o número que mais me interessa não é esse. É o que acontece entre uma consulta e outra: o telemonitoramento que leva o hospital até a casa do paciente, o registro que retorna ao médico assistente, o cuidado que deixa de ser uma sequência de encontros pontuais e passa a ser uma linha contínua. Telemedicina madura não é o hospital atendendo por vídeo. É o hospital presente onde o paciente está.

Agora assista à cena se repetir. A inteligência artificial já transcreve e estrutura consultas, devolve tempo de escuta ao médico, antecipa deterioração clínica a partir dos dados de monitoramento. E enfrenta, palavra por palavra, as mesmas acusações feitas ao estetoscópio: afasta o médico do paciente, ameaça o julgamento clínico, não é medicina de verdade. Posso errar no prazo, mas não no desfecho. Em alguns anos, discutir se a IA pertence à medicina vai soar tão estranho quanto discutir se o estetoscópio pertence.

O que vai definir a velocidade dessa travessia é o mesmo fator de sempre: o trabalho pouco glamoroso de converter a novidade em prática. Validação local dos modelos, rastreabilidade das decisões, responsabilidade clínica definida, tudo sob as exigências da LGPD. É a governança que transforma o aparelho em medicina. Foi assim com o tubo de madeira de Laennec. Será assim com os algoritmos.

Felipe Cabral

Gerente médico de Saúde Digital do Hospital Moinhos de Vento

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