
Minha trajetória na medicina sempre foi movida pelo compromisso com o cuidado, com a segurança do paciente e com a construção de sistemas de saúde mais eficientes e humanos. Ao longo dos anos, transitei da assistência direta para posições de liderança médica e gestão hospitalar, vivenciando de perto os desafios que envolvem tomar decisões complexas, liderar equipes multiprofissionais e sustentar resultados em ambientes de alta pressão. Foi nesse percurso que compreendi, de forma muito clara, que a excelência técnica, apesar de fundamental, não é suficiente para formar líderes completos na saúde.
Concomitantemente à minha carreira médica, iniciei uma jornada no Jiu-Jítsu em 2011, e com o tempo, tornou-se uma verdadeira escola de vida. No início, o objetivo era apenas físico, mas rapidamente percebi que o aprendizado ia muito além do tatame. Conquistei minha faixa preta em 2019 e percebi que assim como na medicina e na gestão hospitalar, o Jiu-Jítsu exige disciplina, constância, estudo e respeito ao processo. Não existem atalhos. Cada evolução é construída treino após treino, erro após erro, aprendizado após aprendizado. A arte suave pode ser considerada uma arte marcial, uma defesa pessoal, mas considero uma trajetória de crescimento pessoal, e vocês entenderão o porquê.
Um dos ensinamentos mais marcantes do Jiu-Jítsu é a resiliência. No tatame, os “três tapinhas” representam um limite momentâneo, nunca um fracasso definitivo. Cada vez que bato, tenho a oportunidade de recomeçar mais atento, mais técnico e mais preparado. Essa lógica se aplica de forma direta à gestão hospitalar. Em projetos de melhoria assistencial, por exemplo, nem sempre os resultados aparecem na primeira tentativa. A implantação de novos protocolos clínicos, a reorganização do fluxo de pacientes ou a revisão de indicadores de qualidade frequentemente exigem ajustes contínuos.
Já vivenciei situações em que um projeto estruturado com cuidado não trouxe o impacto esperado nos primeiros meses. Nessas horas, a resiliência aprendida no tatame faz toda a diferença. Em vez de abandonar a iniciativa, o caminho é analisar os dados, ouvir a equipe assistencial, entender onde o processo falhou e recomeçar. Assim como no Jiu-Jítsu, errar faz parte da evolução; persistir com inteligência é o que gera crescimento sustentável.
Outro valor central do Jiu-Jítsu é a humildade, e longe de mim falar que sou humilde, mas no tatame, não importa o cargo, o título acadêmico ou a posição de liderança fora dali. Todos vestem o mesmo kimono e estão sujeitos a aprender e a errar. Muitas vezes, somos surpreendidos por ensinamentos vindos de quem tem menos tempo de treino, mas mais dedicação ou atenção aos fundamentos. Essa vivência reforça a importância de manter a mente aberta e o ego sob controle.
Na liderança médica e na gestão hospitalar, a humildade é essencial para criar ambientes seguros e colaborativos. Instituições de saúde são formadas por profissionais altamente capacitados, com vivências distintas e perspectivas complementares. Um líder que acredita saber tudo limita o potencial da equipe. Por outro lado, quando o gestor escuta o enfermeiro da linha de frente, o fisioterapeuta da UTI ou o colaborador administrativo que conhece profundamente o processo, decisões mais assertivas emergem. Assim como no tatame, a base sólida vem do respeito aos fundamentos e às pessoas.
O Jiu-Jítsu também me ensinou sobre empatia, de forma prática e constante. Cada treino é uma troca. Quando meu parceiro evolui, sou automaticamente desafiado a evoluir também. Não há espaço para desprezo ou subestimação. O crescimento do outro me obriga a estudar mais, treinar melhor e refinar minha técnica. Essa relação ensina que o desenvolvimento coletivo eleva o nível individual.

Outro valor do Jiu-Jítsu é a humildade. Todos vestem o mesmo kimono e estão sujeitos a aprender e a errar.
Na saúde, a empatia é uma das competências mais estratégicas da liderança. Liderar médicos, enfermeiros e equipes multiprofissionais exige compreender a sobrecarga emocional da assistência, o impacto dos plantões extensos, a pressão por resultados e o sofrimento envolvido no cuidado ao paciente grave. Em momentos de crise assistencial, como aumento de demanda, escassez de recursos ou eventos adversos, líderes empáticos conseguem manter a equipe unida, reduzir conflitos e preservar o foco no cuidado seguro. Empatia, nesse contexto, não é apenas um valor humano, mas uma ferramenta de gestão.
Outro aprendizado fundamental do Jiu-Jitsu é a gestão sob pressão. Durante uma luta, frequentemente nos encontramos em posições desconfortáveis, com pouco espaço e tempo limitado para reagir. Agir de forma impulsiva quase sempre leva ao erro. O treino ensina a respirar, manter a calma, analisar o cenário e escolher a melhor estratégia. Essa capacidade de tomada de decisão consciente em ambientes adversos é absolutamente transferível para a gestão hospitalar.
No cotidiano da liderança médica, decisões críticas precisam ser tomadas rapidamente: manejo de crises assistenciais, gestão de leitos em momentos de superlotação, priorização de recursos, mediação de conflitos entre equipes e enfrentamento de situações éticas complexas. O autocontrole emocional treinado no tatame contribui diretamente para uma liderança mais equilibrada, capaz de sustentar decisões difíceis sem perder a humanidade.
O Jiu-Jítsu também reforça a importância da preparação contínua e dos fundamentos. Nenhuma técnica funciona sem uma base bem construída. Da mesma forma, na gestão hospitalar, resultados consistentes dependem de processos bem estruturados, indicadores claros e treinamento contínuo das equipes. A melhoria da segurança do paciente, por exemplo, não ocorre por ações isoladas, mas pela repetição disciplinada de práticas como comunicação efetiva, checagem de processos e cultura de aprendizado com os erros.
Ao longo da minha trajetória como líder na saúde, percebi que o Jiu-Jítsu me ajudou a desenvolver uma visão mais estratégica e humana da gestão. Ele me ensinou que liderar não é impor força, mas usar técnica; não é vencer o outro, mas evoluir junto; não é evitar quedas, mas saber levantar com mais consciência. Assim como no tatame, na gestão hospitalar o verdadeiro crescimento acontece quando combinamos disciplina, respeito, empatia e resiliência.
Hoje, entendo o Jiu-Jítsu como uma poderosa metáfora da liderança médica e da gestão hospitalar. Ambos exigem preparo técnico, controle emocional, humildade para aprender e coragem para enfrentar desafios complexos. Mais do que uma arte marcial, o Jiu-Jítsu se tornou uma filosofia que aplico diariamente na forma como lidero pessoas, tomo decisões e construo ambientes de cuidado mais seguros e humanos.
Assim como no tatame, na saúde ninguém vence sozinho. O sucesso é sempre coletivo, construído com confiança, respeito e propósito compartilhado. Cada desafio enfrentado, cada queda e cada recomeço moldam líderes mais conscientes e instituições mais fortes. Evoluir exige esforço, disciplina e entrega — mas é exatamente nesse processo que encontramos significado, crescimento e impacto verdadeiro na vida das pessoas.
OSS.
Dr. Fernando Pompeu Piza Vicentine
Diretor Médico e de Práticas Assistenciais na Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo
Faixa Preta de Jiu-Jítsu – 2º Grau





